Moisés teve duas esposas ao mesmo tempo (Zípora e a mulher cuxita)?

Postado por Presbítero André Sanchez, em #VocêPergunta |

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Você Pergunta: Presbítero, lendo a história de Moisés, não ficou muito claro para mim se, quando ele tomou a mulher cuxita, ainda era casado com Zípora. Moisés teria esperado Zípora morrer para casar-se ou teria ficado casado com duas mulheres ao mesmo tempo?

Poucas passagens da Bíblia geram tantas dúvidas em tão poucas palavras quanto Números 12:1. Em apenas um versículo surge uma personagem que nunca mais é mencionada nas Escrituras e que levanta uma série de perguntas importantes sobre a vida de Moisés.

Primeiro, vamos lembrar como o texto descreve o episódio:

“Falaram Miriã e Arão contra Moisés, por causa da mulher cuxita que tomara; pois tinha tomado a mulher cuxita.” (Números 12:1)

Imediatamente surgem várias perguntas. Moisés teria se casado uma segunda vez? O que aconteceu com Zípora, a esposa mais conhecida de Moisés? Ela já havia morrido quando essa mulher cuxita apareceu? Ou Moisés viveu com duas esposas ao mesmo tempo? Ou ainda: Zípora e a mulher cuxita eram a mesma pessoa?

Essas perguntas são muito interessantes, mas a resposta não está em um único versículo. Ela depende de observar cuidadosamente o contexto bíblico, a cronologia dos acontecimentos e aquilo que o texto diz… e também aquilo que ele não diz.

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Quem era a mulher cuxita?

Antes de qualquer conclusão, precisamos admitir uma limitação importante: sabemos muito pouco sobre essa mulher.

Ela aparece apenas em Números 12:1 e nunca mais volta a ser mencionada em toda a Bíblia. O texto não informa seu nome, sua idade, sua família nem explica como ela conheceu Moisés.

A única informação fornecida é sua origem.

A expressão “cuxita” identifica alguém proveniente de Cuxe, região normalmente associada à Etiópia, localizada ao sul do Egito. Portanto, tudo o que podemos afirmar com segurança é que Moisés tomou como esposa uma mulher originária dessa região.

Mas mesmo essa definição é questionada por alguns como veremos na sequência…

A mulher cuxita poderia ser Zípora?

Ao longo dos séculos alguns estudiosos tentaram resolver esse problema propondo que a mulher cuxita seria a própria Zípora.

A ideia parece interessante à primeira vista, pois eliminaria qualquer possibilidade de um segundo casamento de Moisés.

O problema é que essa interpretação encontra uma dificuldade bastante séria. Zípora era midianita.

Ela era filha de Jetro, sacerdote de Midiã. Desde sua primeira aparição, a Bíblia deixa clara sua origem geográfica e familiar.

Já a mulher mencionada em Números 12 recebe outro identificador completamente diferente: cuxita.

Apesar disso encontramos intérpretes que sugerem que “cuxita” poderia ser um apelido de Zípora, talvez devido a sua aparência parecida com essas pessoas desse povo.

Porém, é muito difícil justificar por que o texto abandonaria a identificação “midianita” para utilizar justamente uma referência ligada a Cuxe, que poderia confundir os leitores.

Por isso, embora essa interpretação exista, ela encontra pouca sustentação no próprio texto bíblico. O entendimento mais natural continua sendo que a mulher cuxita era realmente outra mulher que Moisés tomou por esposa.

Como eles se conheceram? Quando ocorreu esse casamento? Em que circunstâncias isso aconteceu?

A Bíblia simplesmente não responde essas perguntas.

E é importante resistirmos à tentação de preencher as lacunas da narrativa com especulações desnecessárias.

Então, o que aconteceu com Zípora?

Aqui chegamos ao ponto principal da dúvida. Se a mulher cuxita era outra esposa, onde estava Zípora?

A última vez que ela aparece nas Escrituras acontece em Êxodo 18. O texto diz:

“Jetro, sogro de Moisés, tomou a Zípora, mulher de Moisés, depois que este lha enviara.” (Êxodo 18:2)

Depois desse capítulo, Zípora praticamente desaparece da narrativa. Entretanto, existe um detalhe muito importante.

A Bíblia nunca registra sua morte. Esse silêncio é significativo. Não podemos afirmar que ela morreu simplesmente porque deixou de ser mencionada.

Há diversos personagens bíblicos que desaparecem da narrativa sem que sua morte seja registrada.

Logo, afirmar que Zípora já havia falecido nesse momento seria apenas uma hipótese, sem apoio explícito nas Escrituras.

Mas será que existem indícios no texto bíblico que apontem que Zípora estava viva? Em minha opinião, sim!

A cronologia pode ajudar a responder essa questão

É justamente a sequência dos acontecimentos que lança mais luz sobre esse assunto.

Observe o que registra Números 10:

“Aconteceu, no ano segundo, no segundo mês, aos vinte do mês, que a nuvem se ergueu de sobre o tabernáculo da congregação.” (Números 10:11)

Esse detalhe cronológico costuma passar despercebido por muitos leitores. Israel ainda estava no início de sua caminhada pelo deserto.

Eles haviam deixado o Egito relativamente pouco tempo antes (segundo ano em que estavam no deserto).

Além disso, ainda não havia ocorrido o episódio de Números 14, quando Deus determina que aquela geração permaneceria quarenta anos peregrinando no deserto por causa da incredulidade.

Isso significa que os acontecimentos de Números 12 estão inseridos nesse período inicial da jornada. Essa informação muda bastante a forma como avaliamos a situação.

Tudo indica que não havia passado tempo suficiente para supormos naturalmente a morte de Zípora por estar em uma idade muitíssimo avançada.

É claro que pessoas podem morrer em qualquer momento. Entretanto, como a Bíblia não registra sua morte e a cronologia ainda está muito próxima da saída do Egito, a conclusão mais provável é outra.

A conclusão mais provável: Moisés tinha duas esposas?

Juntando todas as peças do quebra-cabeça, a meu ver chegamos ao entendimento que parece mais consistente com o texto bíblico.

Se a mulher cuxita não era Zípora, se a Bíblia nunca informa que Zípora morreu e se os acontecimentos de Números 12 ocorreram relativamente pouco tempo depois da saída do Egito, a conclusão mais provável é que Zípora ainda estivesse viva quando Moisés tomou a mulher cuxita como esposa.

Em outras palavras, tudo indica que Moisés passou a ter duas esposas.

Essa conclusão pode causar estranheza para muitos leitores modernos, mas precisamos tomar cuidado para não analisar os acontecimentos do Antigo Testamento apenas com os olhos da nossa cultura.

Na época dos patriarcas e de Moisés, a poligamia existia e era socialmente aceita entre diversos povos, inclusive entre muitos servos de Deus. Abraão, Jacó, Davi e outros personagens bíblicos também tiveram mais de uma esposa em determinados momentos da história.

Isso não significa que a poligamia representasse o ideal de Deus para o casamento. O modelo apresentado desde a criação continua sendo a união entre um homem e uma mulher (Gênesis 2:24). No entanto, a Bíblia frequentemente descreve comportamentos existentes na sociedade sem necessariamente aprová-los ou condená-los naquele momento da narrativa.

Eu já expliquei essa questão neste estudo aqui: Por que Deus permitiu que homens de Deus tivessem várias mulheres

Esse é um detalhe importante. Nem tudo o que a Bíblia relata deve ser entendido como um modelo a ser seguido. Muitas vezes ela apenas registra os fatos históricos de forma descritiva.

Por que Miriã e Arão levantaram essa questão?

Outro detalhe interessante é perceber que o casamento de Moisés não parece ser o verdadeiro problema do capítulo.

Se observarmos o restante de Números 12, veremos que a discussão rapidamente muda de foco.

Logo após mencionar a mulher cuxita, o texto registra:

“Porventura, tem falado o Senhor somente por Moisés? Não tem falado também por nós?” (Números 12:2)

Perceba que a crítica ao casamento serve como porta de entrada para algo muito maior.

Na realidade, Miriã e Arão estavam questionando a liderança que Deus havia concedido a Moisés.

A mulher cuxita parece ter sido apenas o argumento utilizado para enfraquecer sua autoridade diante do povo.

A própria resposta de Deus confirma isso. O Senhor não entra em discussão sobre o casamento de Moisés. Em vez disso, Ele defende a posição singular que havia concedido ao seu servo, mostrando que Moisés possuía um relacionamento com Deus diferente de qualquer outro profeta daquele tempo.

Portanto, o foco principal de Números 12 não é ensinar sobre casamento, mas mostrar que Deus mesmo havia escolhido Moisés para liderar Israel.

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